Foto:Moraes Neto

Negócios alçam voos mais altos em Parelhas

21/10/2014 às 11:55
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Cleonildo Mello

Natal – O avião xavante, afixado em totem na praça da igreja matriz, traduz o momento especial que a cidade de Parelhas (distante 240 quilômetros da capital potiguar Natal) atravessa na área econômica. Assim como uma aeronave, os negócios de pequeno porte tiveram um boom, elevando mais de 122% o número de pequenas empresas no município nos últimos cinco anos. O aumento, no entanto, é resultado de uma forte política de desburocratização no processo de formalização de empresas e de atendimento aos empreendedores locais, medidas estabelecidas com a implementação da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa.

A redução da burocracia deu impulso a profissionais, como Elaine de Azevedo Pereira, que, depois de ser empregada doméstica e promotora de vendas, vislumbrou a oportunidade de ter um negócio próprio. Ela é a proprietária do Pastelão, principal casa especializada em pastéis da cidade. Mas o empreendimento não começou formalizado nem tinha a estrutura atual. A trajetória iniciou há três anos com um carrinho que comercializava o produto nos arredores da rodoviária da cidade. Os pasteis caíram no gosto da população. Parte do rendimento com a atividade era investida na compra de equipamentos, como cilindros e freezer.

Elaine Pereira, porém sentia que faltava algo para o negócio ficar do jeito que idealizara, e então decidiu registrar a empresa no dia 19 de junho de 2012 na categoria de Microempreendedor Individual. “Participei da Oficina Sebrae de Empreendedorismo que foi realizada aqui na cidade e isso abriu minha visão. Vi que era necessário me formalizar. Sempre tive a intenção fazer meu negócio crescer mais e a formalização me proporcionou isso”, explica.

Com a entrada no mercado formal, Elaine Pereira conseguiu locar um ponto comercial na Praça Arnaldo Bezerra, uma das mais movimentadas da cidade, e o Pastelão tomou novos rumos. Funcionando entre 17h e meia-noite, o local chega a fornecer até 300 pastéis em um único fim de semana. O faturamento mensal, que no princípio era de apenas R$ 200,00, deu um salto para picos de até R$ 8 mil. Com os lucros, ela já adquiriu automóvel, motocicleta e outro carrinho de pastel. E planeja tornar a marca em uma franquia. “Quando olho para trás e vejo o que passei, sinto-me uma empresária bem-sucedida”, diz a mulher, que é a principal propagadora das vantagens da formalização em Parelhas.

Os sonhos de Elaine Pereira só puderam ser concretizados porque, além do talento e da visão, a empreendedora encontrou no município o ambiente favorável. Conhecida como a capital da telha, em função do número de cerâmicas existentes – são mais de 40 indústrias -, Parelhas teve de criar mecanismos para que outros setores também pudessem se desenvolver. “A Lei Geral veio para formalizar, reduzir a burocracia e incentivar as pessoas a se tornarem empreendedoras e empreendedoras legalizadas”, ratifica o prefeito de Parelhas, Francisco de Assis Medeiros.

Questionado sobre o motivo pelo qual decidiu tirar a lei do papel, o chefe do executivo de Parelhas explica: “Tínhamos uma dificuldade em encontrar fornecedores e prestadores de serviço para o município. Os empresários não tinham como fazer negócios com a prefeitura por, muitas vezes, não terem algumas certidões e principalmente por não estarem regularizados”.

O próximo desafio da administração é inserir os pequenos nas compras públicas. A ideia é implantar na cidade um comitê gestor da micro e pequena empresa para unir poder público e iniciativa privada no sentido de aproximar quem compra – no caso a prefeitura e órgãos públicos – de quem fornece. Apesar de 95% das licitações do município ficarem com pequenas empresas, nem todas são locais.

Rede Fácil agiliza funcionamento de empresa

O principal feito de Parelhas na implementação da Lei Geral foi a criação da Rede Fácil, que interliga o sistema da Sala do Empreendedor com os sistemas da secretaria de tributação, secretaria de meio ambiente e vigilância sanitária. Uma medida aparentemente simples, mas que deu celeridade a questões importantes para o funcionamento de um empreendimento. O prazo para expedir um laudo e alvará de funcionamento caiu de 22 dias para apenas 72 horas com a Rede Fácil. Com isso, uma empresa recém-criada pode operar no prazo máximo de três dias. A nota fiscal de serviço passou a ser eletrônica, outra facilidade para o empresariado.

A integração, entretanto, facilitou as formalizações dos Microempreendedores Individuais (MEI), cuja quantidade mais que dobrou num período de 18 meses após a implantação da Rede Fácil, em junho de 2012. Até a data, a cidade tinha 162 MEI e, hoje, esse número subiu para 477 microempreendedores. 

“Em parceria com a prefeitura, o Sebrae realizou várias capacitações com os servidores e empresários locais e ajudou no processo de instalação da Sala do Empreendedor, que realiza atendimentos e tem viabilizado um ambiente legal para as compras governamentais. Queremos aumentar a parceria dos pequenos negócios com as instituições do município, proporcionando a implementação da Lei Geral”, diz o gerente do escritório regional do Sebrae no Seridó Oriental, Pedro Medeiros.

Microempreendedores encontram ambiente propício

A facilidade para obter um número no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídica (CNPJ) contribuiu para que o artista plástico Iron Garcia se formalizasse como Microempreendedor Individual há dois anos. “Formalizado, fico assegurado e ainda tenho a chances de conseguir um financiamento”, justifica o empreendedor, que comercializa pinturas e esculturas em feiras e eventos ligados ao setor de economia criativa. Com essa atividade, Iron Garcia chega a ter um faturamento médio de R$ 3 mil mensais. “Valeu a pena demais me formalizar”, resume o artista autodidata, que desenha e pinta desde os 16 anos. Aos 37, conseguiu o prêmio de melhor escultura em concurso promovido pela Pinacoteca do Estado.

Pensamento semelhante tem a jovem Kelly Oliveira, que também descobriu as vantagens da formalização como MEI. Ela produz caricaturas em biscuit para compor a decoração de bolos de casamento e festas de aniversários e 15 anos. Ela aprendeu a técnica e resolveu expor na festa do padroeiro da cidade. O sucesso foi tão grande que virou o negócio da família, que foi registrado formalmente no ano passado. “Somente como pessoa jurídica tive a oportunidade de participar de eventos específicos para noivas. Já cheguei a enviar encomendas para Rússia, Estados Unidos e Itália”.

Pequenos expandem as empresas

Francikleyton Fernandes era montador de móveis, mas viu que já era hora de ser patrão ao estruturar a LK Móveis Planejados, empresa que foi devidamente registrada em julho de 2012. “Fiquei preocupado. Caso ocorresse algum acidente, não teria cobertura previdenciária, então me formalizei como MEI”. As vendas de móveis aumentaram 80% no ano passado e o empresário deixou a faixa de enquadramento como microempreendedor e passou a ser microempresa.

Essa evolução também está relacionada à entrada da empresa na lista de fornecedores da prefeitura, conquista advinda da formalização. Mas a LK Móveis tem uma clientela fiel em Parelhas. A carteira de cliente envolve cerca de 50 consumidores fixos, que compram desde painéis, estantes e cabeceiras de cama a guarda-roupas. 70% dessas vendas são oriundas da internet. Ao fim do mês, o empresário chega a faturar cerca de R$ 40 mil. “A condição de microempresa me permitiu contratar três funcionários. Através da formalização, a parte financeira do meu negócio só cresceu”.

A costureira Aldenora dos Santos também não tem do que reclamar. Após deixar o corte de lenha e a lavoura há oito anos, dedicou-se integralmente à costura e hoje é proprietária de um dos ateliês mais requisitados de Parelhas. Não à toa, se formalizou há dois anos e viu o aumento da produção. “Com o registro, o meu trabalho triplicou. Onde há licitações de prefeituras da região, estou participando. Antes não podia porque nem nota fiscal eu emitia, nem muito menos certidões negativas”.

Com a J Aldy Confecções, ela produz roupas e fardamentos para grandes empresas da região e também fornece para as prefeituras. Ao todo, são cinco prefeituras, três restaurantes e mineradora como clientes certos. O negócio deu tão certo que agora Aldenora dos Santos vai abrir a sexta facção do grupo Guararapes, estimulada pelo programa Pró-sertão. A abertura da unidade, que exigiu um investimento de R$ 150 mil, vai criar 23 vagas somente para costureiras. “Com esse negócio, pude mudar de vida”. O primeiro pedido envolve a produção de 700 a mil peças para o grupo detentor das lojas Riachuelo. “A formalização foi a melhor coisa que fiz por meu futuro”.

Leia mais: Agência Sebrae de Notícias

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